Anticorpo

É... Tenho esse defeito
Carrego na face a fleuma
De andar por aí sem defesa
Sinto cólera, culpa, despeito
Desânimo, ódio, desespero
Mas também sinto vergonha
Disto não tenho medo

Por vezes perco a fé em mim mesmo
Eu sei quem eu sou
Mas as vezes me esqueço
Das minhas fraquezas, porém
Não me eximo nem me isento
Nem disto nem d’outras vilezas

Essa mesma cara que ri
Desaba e lamenta
A mesma cara que chora
Demonstra esperança
A mesma cara que espera
Esboça descrença
É! Eu tenho esse problema

A impecável postura dos mentirosos
Não me cai muito bem. Não sustento ...
Entre os anfitriões da falsa nobreza
Tropeço nas minhas infâmias
Minha educação nunca foi a etiqueta
Exponho desgosto e desavença
Ponderar o discurso, não consigo
Me escapa o que penso
Berro injúrias, cuspo ofensas
Tristeza saber que é sempre inútil
Mas é minha natureza

Ingiro mentiras pelos poros
Mais tristemente, as minhas
Contamino, adoeço, não durmo
Digiro até expelir por inteiro
Este ser estranho, inoportuno

Meu mal-estar, não disfarço bem
Dissimular é arte que não possuo
Deus que me proteja e acuda
Pois ando por aí sem escudo

O Semideus

Ó Nobre Criatura!
Acaso teu imenso orgulho superou teu talento?
Por que te misturas entre os reles mortais
Perambulando entres os fracos e imperfeitos?
Por que te sujeitas aos olhares pequenos?
Pois tua lamúria se escuta em alto e bom som
Tua aparição se vê em vestes de carne e esqueleto.

Por que não estais também pregado na cruz
Sacrificando-se pelo próximo em santo sofrimento?
Por que não levita e te elevas agora mesmo
E finalmente desapareça da vida terrena?
Ou simplesmente cala-te e te submeta!

Não! Não tens tamanha paixão!
E não há nada em ti que inspire ou te enalteça!
Teu lugar não é nas alturas te entretendo
Nem acima nem abaixo julgando, jogando
Raios e trovões em nossas cabeças.
Teu lugar é bem aqui na gravidade da matéria
Sinta teus pés, tua pele queimando grudados nela!

Segure tua angústia e guarde bem tua infâmia
Por menos profana ou nojenta que seja
Aguarde a morte na fila da ignorância suprema
Sue, chore, sangre, sofra, erra e padeça
Feito o mais comum e genérico organismo do planeta

Pulvi es(et pulverem reverteris)

-Veja!
-Me olha, me inveja, me copia!
Enquanto a humanidade se enfuna do seu próprio ego
Num grotesco festival de abastardamento e autofagia
Esquecemos as adversidades com sabores diversos
Babando na mesa com a voracidade ensandecida
Bobos e extasiados com versatilidade do menu

Com tola infantilidade de por na boca o que na mão possui
Devoramos a vermelhidão suculenta da carne
Tão charmosa, tão gostosa, irresistível, irrecusável!
Levados pelos prazeres óbvios, obscenos, imediatos
Escravizados pela alternativa efémera, fácil, fugaz
Padecemos do hábito irremediável de ser humano
Completamente falível, alheio, perdido, vulnerável

Certamente, um dia, tudo estará arruinado.
Da inevitável decadência, ninguém escapa!
No final iremos todos juntos para o inferno
Com a boca suja de diamante, ouro e prata
Lambuzados, felizes, sorridentes de mãos dadas
Lavaremos nossas almas putrefatas
Na frieza da fogueira mais ingrata!
Aquela que não discrimina, nem vê nada

Que assim seja!
Somente assim para acabar com a sobeja
Que a profecia desça dos céus
Sobre todas nossas cabeças
E pese sobre nossos ombros
Até esmagar toda essa prepotência

Que a severa voz, implícita e misteriosa
Que ora ignoramos, ora fingimos ignorar
Venha ordenar nossa despeja. Dirá:
- Saiam todos! Acabou a brincadeira!
Que aqui fiquem os quais aqui o mereça

Na sesta da nossa última ceia
Serviremos de alimento aos nobres herdeiros
Filhos das entranhas da terra
Dignos dela e de sua casta riqueza:
Comemoram os vermes e as amebas
Celebram as traças e as bactérias

O Desejo da Puta

A puta observa o dinheiro deixado na penteadeira
Ela fixa o olhar com certeza de que está tudo ali
Mas com a desconfiança vazia de lhe faltar algo...
Ela vê o conserto da goteira do seu quarto fétido
Um novo vestido,maquiagem, novos lençóis e cortinas
O arroz e o feijão, fralda e leite ninho para o menino
Que chora ao pé da cama recém-usada, alheio ao destino
“O que será? Eu contei errado?” -pensa ela
Tomada por uma mágoa mórbida, ela descobre
Está tudo ali: a sobrevivência de um novo dia.
Faltava-lhe apenas a vontade de viver um outro dia...

Um único beijo

Feito o primeiro beijo,
A gente não acredita
A morte pode chegar...
O beijo pode não vir,
A morte, é certo que virá
Feliz ironia desta vida
Que por um beijo
Vale a pena acreditar

Pequeno Notável, Programa Papo Literário, TV CEARÁ


Olá, Amigos

novamente tive um poema recitado pela TV Ceará. Assistam abaixo.

Abraço a todos.




Pequeno Notável

Só existo quando apareço aos seus olhos
Breve momento gratificante que me faz
Acreditar que sou algo além, algo mais
Daquilo que consigo, do que me mostro
Daquilo que não basta, que não satisfaz

Quando sua atenção se desvia
Aquele breve momento se desfaz
Aquela forma morta se modifica
Para algo além da vida
Para algo além do mais...


Isto Posto

A quem eu quero enganar?...
O trânsito, o engarrafamento, o stress, os eventos
O fashion, a crise econômica do momento
A política, a corrupção, a falência humana
A tradição moral decrépita, fútil e decadente
A extinção preeminente da vida orgânica
As guerras e a paz aparente.
Se vai fazer sol, se vai chover. ou se vai trovejar
Os dias seguem arrastados, maçantes, iguais...

Quanto a mim, sou essa redução de estômago
Vinculado à insignificância do meu decorrer
À ridícula idiossincrasia que somente eu
Nesta vida, em todo o universo, vou desconhecer
E comigo, ao meu lado, o todo que me excede
Vai putrificar, definhar e inevitavelmente perecer
Na intransponibilidade silente de seu próprio ser

Desarme

O mundo te me mostra de maneira injusta
Como de praxe, vulgar e diurna.
Contrária às estátuas exuberantes absurdas
Tua proximidade expõe outras rachaduras

Nem a obscuridade da vaidade mais humana
Nem qualquer outro entorpecente me engana.
Perto de ti, mais seguro me sinto, mas indefeso
… Te abraço num sorriso, te recebo num beijo
És tu agora, junto comigo, invulnerável paixão
Infinito amparo para minha mutante perfeição

PAPO LITERÁRIO, TV CEARÁ

Olá, amigos

recentemente tive a felicidade de ter um poema declamado na TV Ceará, programa Papo Literário. O poema chama-se "Um ponto de eternidade" do livro "Impressões".

Confiram no link abaixo:



Um Ponto de Eternidade

Enquanto seu cabelo me cobrir
Enquanto seu cheiro me perfumar
Cada minuto será um sonho
A se realizar...

Enquanto você sorrir
Enquanto me beijar
E sorrir e beijar
Ao mesmo tempo, impensado
Será teu! Meu tempo, meu espaço
Todo momento, em todo lugar...

Você é um instante fora daqui
Fora da circunfluência sem fim
Um ponto que me tange
Num ponto de eternidade...
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Abraço a todos


Horas Mortas

TIC-TAC, TIC-TAC, TIC-TAC
Caminha, incansável, o ponteiro de segundos
Rumando sempre para a mesma estação
Marcando, passo a pequeno passo, o vazio
Das horas mortas de sofreguidão

TIC-TAC, TIC-TAC, TIC-TAC
Comedindo o tempo esgotado
Barulha a mecânica existencial
Mas a máquina, de fato, não existe
Apenas o tempo retilíneo é real