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Texto Mutilado

Encarnei, sem nem mesmo conhecer, Bernardo Soares. Escrevi longos e breves aforismos sobre meu anonimato E se era, ele, apenas mais um membro mutilado Joguei fora também aqueles textos desassossegados   Assim o fiz, sem nem mesmo antes os lê De maneira tal, semelhante nos faz a vida Se nos livra antes mesmo de nos conhecer

Outono

Quanto tempo demorei para entender Que o outono é o fim da primavera... Assim fazem os poetas. Dissimulam o óbvio implícito Esfregam em nossas caras Sem nos deixar conceber Até que enfim sintamos Já não quero mais fazer isso. Quero bradar as quatro estações A redundância veemente dos pleonasmos Pois já não sei mais o que sinto... Perdi a noção do valor do sentido E não existe paz em nada dissimulado na vida...

Punhais

Dos seus punhais afiados Faço meus broquéis improfícuos... E, assim, tu me machucas duas vezes Sempre de dois jeitos distintos Um, quando sou atingido E, de novo, quando, em vão Ao tentar revidar, enfim, percebo: -Inevitavelmente, me firo

O Misantropo

Na angustia de meu temperamento extremista Nunca buscarei ser tudo Muito menos suportarei ser nada. Não suportarei esperar a morte Perambulando em vida Apenas posso doar de mim pra mim Um pouco a cada conquista Não posso perder o espetáculo da vida Essas figuras lendárias que são os mitos de suas próprias histórias Preciso duma dose diária dessa humanidade doentia Nela reside meu entusiasmo, minha alegria Nunca serei feliz sozinho literalmente Pois é preciso de muita gente Para que me sinta sozinho plenamente Somente assim, no fundo da minha alma Estarei sempre sentado ali Sobre a pedra filosofal Compenetrado a divagar sobre tudo Como se nada a minha volta existisse...