Pular para o conteúdo principal

Ator Peregrino

Quem sou eu na verdade?
Sou a ânsia do ser
Sem de fato nunca vir a sê-lo
Sou um ator peregrino
Andarilho dos campos do desespero
Atuante nos palcos divinos
Da trágica comédia humana
Das tribos sociais
Vagueio feito retirante
Pelos terrenos culturais

Sou ator gafanhoto
Estudo seu comportamento
Decoro seus padrões
Me habituo aos seus gostos
Incorporo seus trejeitos
Consumo seus valores
Sou aceito como membro
Participo de seus rituais
Traço e coleciono
Todos os perfis individuais

Sou um ator peregrino
Figurante dos palcos divinos
Redutos de escravos sociais
Quem sou eu pra dizer?
Sou apenas a ânsia do ser
Sem de fato nunca vir a sê-lo
Sou escravo de mim mesmo
Protelo de minha volição
Proíbo-me terminantemente de me adaptar
Quem sou eu pra falar?
Não sou daqui, não sou de acolá
Não tomo parte, nem me deixo levar
Estou de passagem, vou sem bagagem
Qualquer antro sujo pode ser meu lar

Sou apenas um ator peregrino
Saltimbanco do teatro divino
Me disponho, me visto e me divirto
Do vasto figurino do falso moralismo
É nos bastidores onde choro meus sorrisos...

Comentários

  1. Além de eclético, é talento puro. Isso é você.[rs]
    Seu poema é lindo Carlinhos, como sempre. Parabéns!!!

    Um beijo

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Caravana

É grande o peso que carrego? Não importa. Se tiver que levar, eu levo Se não conseguir andar, arrasto Se, de repente, cansar, eu paro Mil anos parado, aguardo... Enquanto há fôlego, há pulso Mesmo parado, prostrado Eu continuo! Grande é o peso que carrego... Se tiver terra onde errar, eu erro Se tiver pecado pra pecar, eu peco Se não puder falar, escrevo Se estiver escrito, apago Se não puder escrever, eu penso Mesmo que seja proibido Se tiver que fazer, eu faço! O peso é grande, mas eu o carrego... Carrego porque sou levado Pois algum dia, quem sabe, levanto Levanto porque sou erguido Erguido pela força de mil braços Clamor ao céu leva o suplício Mil gritos urgem atrás dos tímpanos “Continua…” Continua porque a vida não é minha Ela quem nasce, cresce e caminha Caminha porque me é alheia Força que Deus provê e determina Eu, apenas, um acidente na areia Continuo porque é minha sina Uivando, gemendo, pedindo Levado porque a natureza quer e precisa ...

O Desejo da Puta

A puta observa o dinheiro deixado na penteadeira Ela fixa o olhar com certeza de que está tudo ali Mas com a desconfiança vazia de lhe faltar algo... Ela vê o conserto da goteira do seu quarto fétido Um novo vestido,maquiagem, novos lençóis e cortinas O arroz e o feijão, fralda e leite ninho para o menino Que chora ao pé da cama recém-usada, alheio ao destino “O que será? Eu contei errado?” -pensa ela Tomada por uma mágoa mórbida, ela descobre Está tudo ali: a sobrevivência de um novo dia. Faltava-lhe apenas a vontade de viver um outro dia...

Despertar Letárgico

Abre teus olhos...Acorda! Pousa teus pés descalços no chão gelado Aterrissa na tepidez da realidade palpável E com um olhar ameno de brilho apagado Observe a inércia da parede à frente Encare e aceite tal semelhança inegável Abre teus olhos...Levanta! Suspende tua carcaça cansada Castigada pela leveza da cama Erga tuas pálpebras pesadas Até metade dos olhos apenas Metaboliza tuas vísceras viciadas Em desvirtuar idéias pequenas Não pense, seja razoável Acolha alheias razões Contemple no cotidiano Minucioso é o cálculo Perniciosas, equações Ressurja mesmo que seja tarde Ainda que a esperança se acabe Insurja controverso e desobediente Contra-costume, contra-praxe Respire! Ensaie tua sorte Expire antigos ares Inspire versos fortes Aspire às tempestades Que guiam o vento norte Esperte! Extirpa a miséria sem misericórdia Entorna, em tuas lágrimas, teu anseio Afoga a compaixão que te comporta Enxuga o choro áspero de veneno Abre teus olhos e veja! Hibe...