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Definhar, definhar e nunca morrer...

Antes tivéssemos da vida uma experiência benéfica.
No cerne da inocência cujo cinismo hediondo impera
Uma dúvida sobre a lição fica, no ar, impregnada
Apenas o aprendizado nos resta.

Ninguém é inofensivo!
Somos perversos e nocivos.
Esboçamos no rosto o sorriso maligno
E com olhar concentrado de desdém
Fitamos o próximo com fome de desesperados
Peçonhentos,
Caminhamos altivos enquanto caem ao nosso lado
Passamos por cima de restos e pedaços
Desenhamos a indiferença em rastos
Tatuados nas costas dos cansados
Nos alimentamos de soberba.
A soberba seca nossos olhos
E molha nossos lábios
E continuamos desnutridos, inquietos, ávidos...

Esperamos nos dar bem...
Esperamos a desgraça de outrem
Fingimos não sabermos que cairemos também
(O medo do próximo...)
Começamos a matar sem conceber
No momento em que somos concebidos
Começamos a do ar morrer
No instante do primeiro suspiro
Da própria sobrevivência, adoecidos
(Escravos de nossas criações,
vítimas de nossos dons divinos)
Todo dia remoemos um equívoco
Todo dia equivocamos um antídoto
Todo dia amargamos um castigo.
Feito animais furtivos, exaustos, sozinhos
Num canto, esquecidos... apodrecemos!
Ao mesmo tempo e da mesma forma
Definhamos, definhamos e nunca morremos...

Meu Deus! Meu Deus!
Pra onde vamos? O que fazermos?
Se pelo menos soubéssemos...
Se pelo menos soubéssemos, morreríamos melhor
Isentos de culpa, transcenderíamos à um status maior
Num improvável céu qualquer tão prometido e esperado
Intermitentemente de vida, entrelaçado
Todo fim seria, por fim, feliz por ser desencantado.

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